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sábado, 3 de setembro de 2011

Dia 05 de Setembro – 122 anos da energia elétrica em Juiz de Fora

Não poderia deixar de comemorar essa data. As aquarelas que fiz para a exposição um "palmo de arte" da Confraria de Arte no Forum da Cultura - JF, é uma homenagem a Bernardo Mascarenhas.

A primeira aquarela refere-se ao seu apelido “pardal do sertão”.

Diziam do Bernardo antes de sua partida para Juiz de Fora: - “Vamos ver o que o pardal do sertão vai conseguir no meio dos canários da cidade”. Em uma carta enviada ao irmão Caetano em 17 de agosto de 1887, Bernardo diz: “Espero em Deus que o humilde pardal do sertão não fará papel triste aqui na terra dos canários e nem voltará para sua terra quebrado e a mendigar empregos como alguém vaticinou”.
Alguns anos depois, estavam desmentidos os prognósticos amargos. O pardal do sertão merecia o respeito e a admiração dos canários da cidade e até dos da Côrte, que lhe davam o nome às ruas e o queriam fazer visconde.
E assim, ficou a partir daí conhecido como o “Bernardo de Juiz de Fora”.



A segunda Aquarela – Teia / Tear – os sonhos de Bernardo.

Embalado por seus sonhos embaixo das árvores da Fazenda de São Sabastião, Bernardo iniciou seus devaneios.Vendo as teias que as aranhas teciam nas copas das árvores formando suas tramas ele tecia seus planos. Assim como essas teias Bernardo veio mais tarde tecer seus fios e produzir os tecidos nos quais envolveria seus projetos concretizados.



Na terceira aquarela uma lâmpada guarda em seu interior a imagem de Bernardo.

Relembrando um jornal da época percebemos a importância de seua realização: “A Rua Halfeld, que era a principal, estava ocupada em vários pontos por grandes faixas suspensas com galhardetes de colorações variegadas e que de longe apresentavam aspecto garrido. Em diversos prédios viam-se lanternas multicores, arandelas de cristal e bandeiras com as cores nacionais. Às sete horas da noite, em frente a tecelagem Mascarenhas, onde se aglomerava a multidão de populares, Bernardo ligou a luz e franqueou ao público o estabelecimento inteiramente iluminado. Logo a seguir formou-se um cortejo imenso, tendo à frente a Diretoria da Companhia Mineira de eletricidade, que percorreu as ruas da cidade, tôdas iluminadas, enquanto vários fogos de artificio rabiscavam no ar (MASCARENHAS, 1957).”






Há dias uma lâmpada estourou em minha casa e de uma forma surpreendente ficou semelhante à pintura que fiz. 122 anos depois eu segurava um simbolo quebrado que para 
mim representa o fim, porque o que se quebra não pode ser colado.



A PREOCUPAÇÃO DE BERNARDO COM A INSTRUÇÃO DE SEUS FUNCIONÁRIOS

Na pesquisa que estamos realizando para o Projeto de historia em quadrinhos, no qual relataremos na primeira historia a vida de Bernardo, um dos fatos que mais me deixou agradavelmente surpresa foi sua preocupação com a EDUCAÇÃO. Esse exemplo é o que queremos mostrar para nossos jovens e apresentar para todos esse personagem empreendedor, dedicado e inovador.
 “Estabelecida na zona rural, com estrutura urbana precária, tanto na vizinha Tabuleiro Grande como no arraial do Cedro, a fábrica passou a cuidar de toda a vida de seus operários, construindo casas para suas moradias, fornecendo-lhes através de um armazém géneros alimentícios, vestimenta, medicamentos, além de prestar-lhes assistência médica e instrução. Quanto à instrução, ela passou a ser uma necessidade, uma vez que o trabalho industrial, diferentemente do agrícola, necessitava que o operário soubesse ler e escrever, não só para compreender melhor as instruções que lhe eram passadas, como fazer alguns cálculos para executar seu trabalho.  Tudo indica que a escola, tanto a feminina como a masculina, começou a funcionar em junho de 1874, já que no dia 13 aparece a seguinte anotação no Livro-Diário: "A Caixa - Escola noturna -Pago a Valeriano Ferreira da Silva por 5 candieiros para a escola a 2$900 - 14$500; idem a Serafim Marinho (sua conta emassada) pelos serviços de seus carpinteiros na construção de bancos, mesas para a mesma escola - 72$600 - 87$100" (LD-CE,1872-1880:316).
No mesmo Livro, vemos duas anotações referentes ao professor que foi contratado. A primeira é de 27 de junho de 1874 referente ao pagamento "por 25 dias que lecionou a 1$000 25$000", e a outra de 25 de julho relacionada a um "adjutório ao mestre para sua mudança 12$000" (LD-CE.1872-1880:321 e 334).
A alfabetização era vital para a qualificação do operário, principalmente para a formação de futuros técnicos nacionais. Saber ler, escrever e fazer as quatro operações eram condições fundamentais para o exercício de algumas funções, notadamente as técnicas, as de controles e as de chefias. A escola, portanto, exerceu um papel decisivo para o aperfeiçoamento técnico e social do operário.
Tornando-se alfabetizado, o acesso a manuais e plantas melhorava sua condição profissional, já que passava a entender o funcionamento dos equipamentos, além de passar a assimilar, com mais clareza, o regulamento e outras normas escritas, o que lhe permitia aprender novos hábitos, diferenciando-o do escravo e do trabalhador rural analfabetos e na sua maioria desqualificados, com pouquíssimas oportunidades de ascensão profissional.

Foi, portanto, do ponto de vista social que a escola teve uma influência decisiva na vida do operariado, não só diferenciando-o dos demais trabalhadores analfabetos, mas estimulando-o para que "o jovem operário crescesse profissionalmente e ascendesse social e economicamente" (GIROLETTI, 1991:99).*
Um País que não investe em EDUCAÇÃO não está avaliando o quanto está perdendo nem o que estará irremediavelmente destroçado no futuro. 

Dignidade, saber e auto-estima não tem preço e só pode ser conquistado com investimento no desenvolvimento do ser humano.

Num momento em que lutamos pela qualidade da EDUCAÇÃO e pela valorização do PROFESSOR esse exemplo nos impulsiona e nos faz esquecer os obstáculos e procurar sempre o sucesso e a concretização de nossos sonhos.


*MASCARENHAS, Nelson Lage, Bernardo Mascarenhas - O surto industrial de Minas Gerais, Gráfica e Editora Aurora, RJ , (1957?).

domingo, 29 de maio de 2011

Minha homenagem a Bernardo Mascarenhas

Bernardo Mascarenhas nasceu em 30 de maio de 1847 e como estamos pesquisando sua história para o projeto Bernardo Mascarenhas, um homem várias histórias, da Cedro e Cachoeira até os dias de hoje, não poderia deixar de prestar uma homenagem.

Vou reproduzir algumas rimas do Zé Piloto que escreveu em sua coluna  Rimas Sem Rumo, na Gazeta da Tarde de 26 de agosto de 1889:

Não estou em mim. Não posso
Em saudar a todos ardo.
Viva, viva, viva o nosso
Caro Bernardo

No livro Bernardo Mascarenhas Desarrumando o arrumado - um homem de negócios do século XIX,  Alisson Mascarenhas Vaz pode nos mostrar um pouco da personalidade de Bernardo, reproduzo um trecho da introdução:

"Bernardo Gonçalves da Silva Mascarenhas não foi apenas um rico homem de negócios que viveu na segunda metade do século XIX, em Minas Gerais. Ele foi, antes de tudo, um inovador em tudo que fez em sua curta vida de apenas 52 anos, dos quais 31 dedicou a projetos industriais, dois deles pioneiros. Uma fábrica de tecidos, em 1872, no arraial do Cedro, que foi a primeira da Província de Minas Gerais e uma usina hidrelétrica, em 1889, que foi a pioneira na América do Sul, fornecendo energia para a iluminação pública e particular de Juiz de Fora.
Ele foi um obcecado pelas novas tecnologias que dominaram o século XIX. Foi um inovador por excelência, que conseguiu desviar parte da fortuna da família Mascarenhas para outras atividades que não a agricultura, a pecuária, o comércio e a financeira a que se dedicavam os seus endinheirados membros, que viviam no sertão da Província de Minas Gerais.
Na pasmaceira do interior da Província, quando se acordava às quatro da madrugada, almoçava-se às dez, jantava-se às quatro e dormia-se às oito da noite, utilizando-se a mão-de-obra escrava predominantemente, enquanto as escravas iniciavam os jovens filhos da aristocracia agrária na vida sexual, no sertão, em que o silêncio só era cortado pelas chibatadas do feitor, pelo canto sofrido dos escravos, pelo ranger dos carros de boi, pelo uivar das feras nas matas e pelo canto dos pássaros, Bernardo introduziu o trabalho livre e o barulho cadenciado dos teares.
Talvez, convencido de que havia se transformado em um estorvo para aqueles que faziam restrições a suas ideias avançadas para aquele meio, buscou novos ares em um centro urbano em franca expansão como era Juiz de Fora, no qual haveria maior receptividade a seu génio empreendedor. Foi recebido com fama de industrial competente e realizador audacioso, mas bastou que procurasse introduzir a eletricidade na semiescuridão da luz fraca dos lampiões, para que sofresse a desconfiança da imprensa e de parte da população.
Bernardo vinha sempre para desarrumar o arrumado. Como fizera no sertão, ele chegava para subverter o cotidiano daquela Juiz de Fora ainda provinciana, dando-lhe ares de cidade cosmopolita, introduzindo a luz elétrica que até então era privilégio de raras cidades brasileiras e das metrópoles europeias e norte-americanas. Arriscando sua reputação e seu capital, não optou, como fizera a cidade de Campos no Rio de Janeiro, por uma usina termelétrica de eficácia conhecida, mas que necessitava do carvão importado, preferindo utilizar a água, abundante no país, mas cuja eficiência ainda provocava acaloradas discussões entre especialistas, quanto ao melhor sistema para a condução da energia a longa distância.
Bernardo chegou a Juiz de Fora, quando as campanhas abolicionista e republicana já eram uma realidade, na contramão da elite política, que se confundia com a económica, embora precisasse e fizesse parte dela. Se é verdade que essa elite buscava construir uma identidade moderna para se alinhar com a postura imperial estabelecida a partir da Corte, produzindo uma "modernização conservadora", no dizer de James W. Goodwin Jr., a modernidade pretendida por ele, ao contrário, nada tinha de conservadora, uma vez que não se alinhava com a preservação do regime imperial, mas sim com o advento da república. Ao conjugar modernidade e república, o que ele buscava era não só subverter a ordem económica, mas também a política dentro de parâmetros que não eram os da elite juiz-forana. A sua modernidade, a companhada da república, almejava abalar os alicerces do Império e com ele a sua sustentação económica que se baseava no trabalho escravo e na agricultura. Bernardo era republicano e industrial.
Se Bernardo foi muito mais um homem de ação que de pensamento, este não esteve totalmente dissociado de sua prática empresarial, que foi decisiva para o processo de industrialização de Minas Gerais, do qual ele foi a figura mais representativa.
Realmente, Bernardo teorizou pouco ou quase nada sobre o desenvolvimento económico, principalmente o industrial, dos últimos trinta anos do século XIX. Podemos apenas encontrar algumas posições nacionalistas em trechos de cartas que escreveu para alguns amigos e, principalmente, para os irmãos. Embora tivesse como modelo o capitalismo inglês, que ele conheceu bem em sua primeira viagem à Europa em 1874, sempre procurou adaptá-lo à realidade brasileira, apesar de todas as limitações da época. Embora acreditasse na iniciativa privada como força propulsora do desenvolvimento económico, para o qual cabia ao Estado um papel regulador, em determinadas circunstâncias acreditava na necessidade de sua intervenção direta.
Na sua prática econômica, não foi por acaso que optou por uma usina hidrelétrica ao invés de uma termelétrica ao conceber a iluminação elétrica de Juiz de Fora. A água como geradora de energia encontrava-se em abundância na natureza bastando captá-la, enquanto havia necessidade de se importar carvão para acionar uma termelétrica. Este traço nacionalista sempre esteve presente em seu pensamento industrial. O protecionismo que defendia para o café, aliado a um câmbio favorável, não deixava de refletir essa sua posição.
Também não pode passar desapercebida a sua insistência com relação à mão-de-obra técnica para a indústria têxtil que ele queria nacional, insistindo que os técnicos estrangeiros, além de receberem altos salários, não transferiam seus conhecimentos, mas, ao contrário, faziam deles motivo para criar laços de dependência junto aos empresários pioneiros que investiam no setor.
O que sempre pregou Bernardo - não foi por acaso que em sua primeira estada na Inglaterra frequentou as oficinas de fabricantes de máquinas, tornando-se um hábil maquinista apto a transmitir seu conhecimento para jovens operários brasileiros - foi que havia necessidade de se livrar da dependência do técnico estrangeiro, não só para que as fábricas ficassem desobrigadas do pagamento de salários em moeda estrangeira, mas, principalmente, porque era necessário formar uma mão-de-obra autóctone que pudesse dar maior segurança aos novos industriais.
É preciso, portanto, que busquemos as raízes do pensamento e da atuação empresarial de Bernardo, já que, através de sua origem - nascido e criado em um meio agrário, conservador e escravocrata - nos parece difícil encontrar as respostas para a sua formação moderna, republicana e industrial."
Temos muito a dizer sobre ele e poderão conhecer em breve quando finalizarmos nosso projeto com uma história em quadrinhos que contará parte de sua vida.

Até lá!


domingo, 27 de março de 2011

Histórias e memórias do CCBM


A partir das pesquisas que estamos realizando para o projeto Bernardo Mascarenhas, um homem várias histórias, da Cedro e Cachoeira até os dias de hoje. Surgiram outros assuntos e outras histórias e algumas fazem parte de experiências que vivi no CCBM no período em que trabalhei na FUNALFA.
Apresento aqui parte desse relato, o restante vocês poderão visualizar no meu site www.rosevalverde.art.br na página Arte-educação – arquivos textos p/ divulgação – O CCBM sob meu olhar.
 Apresentação de Henrique Simões na abertura da Mostra Professor Também Faz Arte (2010)
“Quem diria que após vinte anos em que eu fiz um curso de Teatro com o Henrique Simões o reencontraria encenando textos de Drumond no mesmo espaço em que ele tanto lutou para criar. E tive o privilégio de documentar esse momento que agora serve como um elo entre o presente e o passado. [...] Mas podemos voltar mais ao tempo até meados de 1983 quando Simões conversava com Walter Sebastião, jornalista e crítico de arte, sobre a Fábrica Bernardo Mascarenhas que estava há anos abandonada e sem utilidade. E assim, Henrique Simões, Walter Sebastião e Guilherme Bernardes iniciam junto com os irmãos, Décio, Nívea e Carlos Bracher e vários outros artistas e intelectuais da época a campanha “Mascarenhas meu amor”, que é o início de um longo processo de negociação e mobilização visando negociar com autoridades do estado a fim de conseguirem transformar a velha e falida fábrica no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. [...]Em 1990 comecei a trabalhar na Funalfa a convite da Superintendente Patria Zambrano e o Coordenador de Cultura na época era o Natale Chianello, foi aí que entrei na Oficina do Sensorial Teatro que era dirigida pelo Henrique Simões. [...] De 1990 a 1994 trabalhei na Funalfa no setor de Artes Plásticas e durante esse período iniciamos um cadastro de artistas plásticos da cidade e através desse cadastro começamos a reunir os artistas e realizar eventos ligados a arte. Montamos o projeto Galeria Aberta, que reunia artes plásticas, poesia, dança, apresentações musicais e concertos no Parque Halfeld. Em setembro de 91 realizamos a galeria aberta que tinha uma premiação ao final e exibimos também, durante o evento, filmes de arte em 16 mm sobre Picasso, Os Impressionistas, Delacroix, Marc Chagall, Braque e Claude Monet. Realizamos exposições no Saguão da Câmara, como a exposição coletiva Grupo 16, e no próprio Espaço Mascarenhas a exposição de Artistas da Zona da Mata, gincanas artísticas ao ar livre e etc.[...]”
Obra em exposição no MAMM  

No dia 27 de março, quando estive na abertura da exposição, O POETA DAS IMAGENS, Acervo da Casa de Rui Barbosa com pinturas de Arlindo Daibert no Mamm, outra história veio a minha memória. Arlindo Daibert faleceu em 1993 e poucos conhecem a história de sua morte que aconteceu no próprio CCBM, enquanto ele fazia uma palestra sobre cinema. Alguns ouvintes acharam que ele estava encenando, pois, falava sobre filmes de suspense quando caiu vítima de um ataque cardíaco. 


 
Arlindo Daibert

Arlindo, exerceu sua arte com dedicação e originalidade e partiu novo ainda, em plena atividade, resgatando histórias da arte como era sua preocupação sempre.

Mais histórias, estamos reunindo e em breve estará num blog que será o registro de toda a pesquisa realizada nesse projeto. Até lá dividiremos alguns momentos importantes que fazem parte da história do Espaço Mascarenhas e de nossa cidade.


quarta-feira, 2 de março de 2011

A História da Galeria de Arte Celina - JF

Por Rose Valverde[1]



Estamos desenvolvendo o projeto “Bernardo Mascarenhas, um homem várias histórias, da Cedro e Cachoeira até os dias de hoje”, e, como parte do processo de pesquisa realizamos algumas entrevistas. Minha curiosidade era saber mais sobre a história da Galeria de Arte Celina, que existiu em Juiz de Fora na década de 60. Eu e Alcione Bracher realizamos essa entrevista com a Nívea, Décio e Carlos Bracher, no dia 25 de fevereiro de 2011.

Espero que gostem...



O símbolo da GAC – Galeria de arte Celina foi feito pelo Sr. Waldemar, pai dos Bracher (Nívea, Celina, Décio e Carlos). E segundo conta Nívea: “Era em nossa casa e na Parreiras aonde os artistas se reuniam. A Galeria de Arte Celina também surgiu dessa necessidade de espaço. Uma coisa é fazer os seus quadros para expor e outra coisa era fazer além da montagem da exposição à estruturação do próprio espaço para expor, porque, segundo o Dnar Rocha: “uma exposição tinha que ser um momento extraordinário”.


“Então todo ano a gente montava uma galeria de arte”, disse Nívea. O Carlos e o Décio e a Celina, que tinha uma capacidade fantástica e era muito além do tempo dela. “A Celina era uma Angela Diniz antes da Leila Diniz” dizia a Wanda, a mulher do Luis Afonso. Nívea então explicou: “Pensamos em montar um espaço permanente para receber as exposições que a gente quisesse. E não se sabia aonde. O Décio se lembrou de um espaço que o papai tinha na galeria PIO X. Ali já funcionava a cultura Inglesa e o DCE e o tio Lico[2] tinha feito a primeira academia de arte de Juiz de Fora, na década de 50 e dava aula de violino, e eu estudei com ele Violino. Tinha o Ney Bohns Martins que tinha um escritorio na galeria”.



Vista do Castelinho dos Bracher - Pintura de Frederico Bracher

Vista atual


Ela continua: “Então, aquele segundo andar, onde meu pai tinha um escritório de uma imobiliária que faliu porque fazia casas decentes de ótima qualidade, e se chamava ENISA - Empresa Nacional Imobiliaria S.A., era um grupo de BH, e o papai ficou gerenciando. E como faliu, o papai continuou com aquele escritório e facultava aquele espaço para reuniões de grupos como da Filarmônica, o coral do Vitor Vassalo...”
“E o Décio falou por que não fazermos esse espaço lá? Era uma sala grande, a outra com corredor e um banheirinho, eram três salas conjugadas. E aí é que entrou a inventividade do Carlinhos e do Décio e eles conseguiram modular aquele espaço de uma maneira tão fantástica, era multiuso. Então, ora era cinema, quando era cinema descia a tela que cobria a janela, a que dava para a Rua Halfeld. Tinha cinema de dia e a noite. Tinha teatro de arena. O Natale Chiannelo fez peças de teatro lá dentro e havia as exposições, cursos e palestras. Fizemos um buraco na parede para colocar a câmara de projetar e foi feita num ângulo certinho e não distorcia a imagem”. 

“Aqui existia um clima de cultura na época. Que o Décio fala muito bem que quem não viveu em Juiz de Fora nos anos 50 e 60, não conheceu o paraíso. Isso aqui realmente era um paraíso. Um grupo. Nós éramos tão irmanados que não eu, individualmente, o Décio e a Celina, nós éramos uma alma grupo. Aonde ia um, ia o bando, e a Celina sempre liderando”.
“Nós saíamos todos os domingos para pintar, mas a gente saía num bando de umas vinte pessoas e todos nos íamos de ônibus, pois ninguém tinha dinheiro.  O Nelsom do observatório Flammarion é o único que ia de lambreta. A Celina não pintava, mas encantava... Ela que fazia o fio de meada com todo mundo. Teve um caso muito engraçado da Celina, Pupi e Mafalda. É que a Celina não podia ver água que ela pulava na água e nesse dia estávamos pintando na Cerâmica e elas pularam na água, e começaram a se afogar e aí os três artistas pularam na água para salvá-las e, quando estavam todas salvas a Celina resolveu entrar na água de novo e aí ficou meio assim uma piada. A Celina não pinta nem nada...

 Celina Bracher (1934-1965)


“Tinha de tudo, o grupo tinha repórteres, tinha mulher, tinha homem, tinha um professor Francês de arqueologia, o Décio, tinha o Afonso Romano de Santana. Era um grupo muito bom. Então, com um grupo bom desses tudo sempre acontecia, não precisava ter dinheiro. Essa envolvência cultural, todos juntos... A galeria Celina foi fundada em 1965 em dezembro no dia 19, e a iluminação era de lata de Neston.”

Nívea ainda acrescenta: “Hoje em dia tudo tem que ter projeto, mas antigamente não. Dinheiro ninguém tinha. Com a capital, indo para Belo Horizonte, Juiz de Fora esvaziou. Mas Juiz de Fora tinha aquele clima cultural e aí que vou situar a galeria Celina. Eu sei quando começou, mas quando acabou eu não posso precisar a data, porque eu sinto que ela não acabou. Ela continuou. É como uma semente quando você planta, você acha que ela morre. Mas ela não morre, ela se transforma na árvore. Quase tudo que vem hoje em Juiz de Fora, passa pela gente, passa pela Galeria de Arte Celina, e isso é mérito da qualidade de pessoas de Juiz de Fora.”

 Spot projetado por Frederico Bracher


Achei importante destacar os spots que foram idealizados pelo Frederico Bracher (pai da Alcione) e que funciona até hoje. O Carlos Bracher nos mostrou como era seu funcionamento.


Carlos Bracher diz: “mas a gente tinha o principal que é o sonho, isso não tinha limite. A gente era mantido a sonho 24 horas. Muito mais que 24 horas. O dia era uma eternidade. Cada dia entre todos nós, não só os da família, mas entre os amigos era a plenitude de viver, de sonhar, de realizar, de produzir coisas, de se irmanar através desse espírito grupal coletivo. A gente criou um senso muito específico de felicidade entre todos nós... Aí que era uma coisa importante, a potencialização dos feitos.”
“Se a gente for à Galeria Celina hoje, é uma sala de 8x8, não é nada, uma salinha de nada. A sala física era inacreditavelmente exígua, pequena. Mas o espaço do sonho é que era grandioso, era ilimitado. Essa condição da espacialidade, do viver e do imaginar e do criar, essa, era ilimitada. Foi uma coisa tão profunda, de tal intensidade que no ano de 66 nós fizemos mais de 500 eventos em um ano. Porque lá era assim: de manhã, de tarde de noite e de madrugada... Se alguém quisesse ir lá de madrugada tinha gente lá passando filme e eram obras primas do cinema internacional.”

Nívea - Filmes que eram da cinemateca de Paris e que hoje compõe a cinemateca do MAM do Rio, toda a história do cinema.

Carlos Bracher – “Fizemos cursos de Cinema... Vieram críticos de cinema, cineastas. A primeira exposição do Arlindo Daibert foi nesse espaço. E do Roberto Vieira... Enfim, é importante dizer é que a galeria começou para ser um movimento de artes plásticas, uma galeria de arte, mas só que imediatamente deixou de ser isso e passou a ser um Centro Cultural. Porque a gente ali integrava todas as artes. Essa sensação de pluridade é que deu o grande sentido daquele espaço, daquele Centro Cultural”.

 Décio, Nívea e Carlos Bracher


Foram horas de bate papo e muitas outras informações que em breve estaremos disponibilizando no blog do projeto Bernardo Mascarenhas.

Por hora fico por aqui, mas com certeza teremos mais histórias para contar...


[1]Rose Mary Pinto Valverde de Carvalho, Artista Plástica, Professora de Artes, Especialista em Arte, Cultura e Educação – IAD/UFJF.

[2] Frederico Bracher - Nasceu no Rio de Janeiro em 1920 e faleceu em Belo Horizonte, em 1984. Pintor, desenhista e violinista, estudou pintura com Amilcar Agretti. Recebeu o Prêmio de Pintura do jornal Estado de Minas em 1938. Em 1939 transferiu-se para Montes Claros, MG, onde abriu uma escola de artes, para o ensino de pintura e música. Com outros músicos fundou a Orquestra Filarmônica de Juiz de Fora e foi membro fundador da Associação de Artistas Plásticos de Minas Gerais. Expôs individualmente em vários estados brasileiros e em Tóquio, destacando-se: mostra no Núcleo São Lucas em Belo Horizonte (1935-36); Automóvel Clube de Montes Claros, MG (1937-56); Automóvel Clube de Belo Horizonte (1942/63/70); Galeria Minarte, BH (1964-65); Galeria de Arte Telemig, BH (1984); Palácio das Artes, BH (1986); Centro Cultural Pró-Música, Juiz de Fora (1986); MAC, Curitiba (1986); Fundação Cultural do Distrito Federal (1986); Centro Cultural Hermes de Paula, Montes Claros (1986); MASP (1986) e Museu Nacional de Belas Artes, RJ (1986). Participou da mostra coletiva Emergência do Modernismo em Belo Horizonte, realizada no Museu Mineiro (1996) e do Salão Municipal de Belo Horizonte (1937/1938). Possui obras no acervo do Museu Mineiro em Belo Horizonte e Museu Mariano Procópio em Juiz Fora.

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Nívea Bracher (1939) Nasceu em Belo Horizonte, filha de Waldemar e Hemengarda Bracher. Veio com sua família residir em Juiz de Fora em 1940. Historiadora e artista plástica. Foi uma das criadoras do Grupo Oficina em BH, na década de 60. Fundadora junto com seus familiares da Galeria de Arte Celina em Juiz de Fora – MG.
Décio Bracher  (1932) Natural de Belo Horizonte. Iníciou seus estudos na SBAAP entre 1943 e 1945. Historiador, geografo, Arquiteto e vários cursos de extensão e eperfeiçoamento nas áreas de artes plásticas, música, história, arquitetura e urbanismo. Fundador junto com seus familiares da Galeria de Arte Celina em Juiz de Fora – MG. Trabalha com pintura, pintura em cerâmica e aquarela. Fonte: AMARAL, Lucas Marquesdo, A Parreira e seus artistas, FUnalfa, 2004.
Carlos Bracher nasceu em Juiz de Fora MG, em 1940, numa família voltada para as artes plásticas e a música. Em 1967 obteve o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro" do Salão Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro , através do qual permaneceu por 2 anos na Europa, em estudos e viagens, residindo principalmente em Paris. Reside desde 1972 em Ouro Preto,MG. A partir de 1970 tem exposto nos principais museus e galerias do país. Em 1980 lhe foi conferido o "Prêmio Hilton de Pintura", da Funarte, como um dos 10 Artistas que mais se destacaram no Brasil, na década de 70, entre eles Claudio Tozzi, João Câmara, Siron Franco e Tomie Ohtake. No exterior, fez exposições individuais em Paris, Roma, Milão, Madri, Haya, Lisboa, Miami e Santiago do Chile. Em 1990 pintou uma série de 100 quadros , intitulada "Homenagem a Van Gogh", que foi exposta no Museu de Arte de Belo Horizonte, Simões de Assis Galeria de Arte em Curitiba e Galeria Bonino no Rio de Janeiro. Posteriormente foi exibida em Rotterdam, Paris, Auvers-sur-Oise, Londres, Pequim, Tóquio e Bogotá.
Foram editados quatros livros sobre sua obra: "Bracher" (Métron); Homenagem a Van Gogh  (Empresa das Artes) ; "Bracher; do Ouro ao Aço" (Salamandra); "Carlos Bracher : da Mineração da Alma" (EDUSP), além de integrar 12 livros de arte . Existem dezenas de vídeos sobre sua vida e obra e os grandes críticos nacionais escreveram sobre ela. fonte:http://www.nini.com.br/artistas/artistasVerCurriculum.php?artista=61